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Showing posts from January, 2026

A história afegã, Parte II: a hipocrisia da war on drugs de Reagan e um fundador da Irmandade Muçulmana

  ( originalmente publicado a 26.06.12) A CIA, sob olhar envergonhado da DEA, criou o maior drug lord dos anos 80. Gulbudim Hekmatyar era o líder  de um pequeno grupo de guerrilheiros, o Hezb-i-Islam,  que operava  apartir de Pershawar, na fronteira afegã. Foi um dos fundadoresa da Irmandade Muçulmana no Paquistão e chefiou as manifestações  anti-Kabul no início dos anos 60. Gostava de atirar ácido às estudantes que se recusavam a usar o véu e foi acusado de ter asassinado uma jovem esquerdista em 1972. Foge então  para a zona de Pershawar. Mais tarde, em 1973, Daud destrona o rei e  e Hekmatyar, com  a ajuda de Butho ( o pai de Benazir)  lança diversos ataques à república comunista e ateia de Daud, a partir do vale do Panjir. Como sabem, Daud começou a tergiversar, aproximou-se  do Irão e os soviéticos resolveram ag...

Chicago Juarez II ( introdução à Lei Seca)

  ( originalmente publicado em 24.06.12) Nada é assim tão simples. Abra-se com este artigo de Euan Wilson:   The story of Prohibition after the 1929 stock market peak is a model for how the current crisis in Mexico and the U.S. is likely to play out. In the late 1920s and early 1930s, Chicago streets ran red with the blood of victims connected to the alcohol industry. In a quest for territorial control, gangs expanded bootlegging operations beyond Chicago, with Capone’s reach eventually extending into Florida. As bootlegging routes grew, so did associated violence. A few defenders of Prohibition steadfastly supported The Untouchables, but in time, the majority of the public simply grew fed up with the criminal warring and the corruption, violence, and death associated with law enforcement efforts. In the end, public mood demanded change and Prohibition was r...

Memórias

  ( originalmente publicado a  24.06.12) Ângelo Mariani, corso de nascimento, lança em 1863 uma bebida que viria a fazer história, o vinho Mariani , feito com a fermentação de folhas de coca. Da Rainha Vitória ao Xá da Pérsia, todo o fino mundo o bebeu no final desse século. Como curiosidade, uma carta do secretário do Presidente dos EUA William McKinley, para  alguém que enviou à Casa Branca uma caixinha do produto: My dear Sir, Executive Mansion, June 14, 1898 Please accept thanks on the President's behalf and on my own for your courtesy in sending a case of the celebrated Vin Mariani, with whose tonic virtues I am already acquainted, and will be happy to avail myself of in the future as occasion may require. Very truly yours, John Addison Porter, Secretary to the President Outros tempos.

A história afegã, Parte I: os antecedentes iranianos

  ( originalmente publicado em 21.06.12) Os EUA exibem o maior recorde de asneiras em sede de  política de drogas. Como têm sido eles, desde o início do século passado , a liderar as referidas políticas, a conclusão é estelífera. Já aqui falei , a propósito de Khun Sa, da forma desmiolada como os EUA se intrometeram  no antigo Triângulo Dourado: a política da DEA e da Casa Branca foi a de estilhaçar a zona, provocando o aparecimento de centenas de focos de produção e dezenas de senhores da guerra ,  que se transformaram em senhores do ópio . Avançando  até aos anos 80,  a verdade é que nada chega aos calcanhares da asneira afegã: ao mesmo tempo que que declaravam a war on the drugs , os americanos  criavam o mais pujante e concentrado  território produtor de ópio até hoje existente: o Afeganistão.  A razão  foi simples: ...

A mentira portuguesa

  ( originalmente publicado em 21.06.12) Isto é  a regra , não é a excepção. Quando digo regra, refiro-me à forma como as drogas , que os  proibicionistas  e  os fanáticos ( são coisas diferentes)  garantiam não existir nas cadeias quando o primeiro governo de Sócrates tentou ( sem muita convicção, diga-se) estabelecer programas de redução de riscos lá dentro, entram nas prisões. A regra não é , obviamente, a existência de funcionários traficantes. Como podem ler , basta um:   "But the most significant sources of drugs, many prisoners claim, are wayward staff members, or “bent screws.” “You just need one corrupt officer,” said one inmate, “for the whole wing to have drugs" .

Raízes e coloniais e imperiais da proibição ( introdução)

  ( originalmente publicado  a 19.06.12)   ( Trabalhei no terreno durante bastante tempo. Estagiei e depois efectivei como toxicoterapeuta numa das áreas mais duras: a desintoxicação.  Entre 1991 e 1995 apoiei os drogados que passavam oito dias ( quando não desistiam) na primeira UD ( unidad de desintoxicação)  criada em Portugal: a do CAT de Coimbra, dependente do Ministério da Saúde. Também colaborei, desde o início, com a Comissão Nacional de Luta contra  a SIDA, no âmbito do Projecto Stop-SIDA, o primeiro programa de redução de riscos que envolveu troca de seringas em farmácias. Ensinei, no ISMT, também durante muitos anos, História  e Cultura das Drogas. Hoje sou só  um teórico   e historiador amador das drogas, com muito lastro prático, mas  ainda com mais respeito pelo estudo e pelo conhecimento não-clínico do...

Chicago-Juarez ( introdução à lei seca)

  (originalmente publicado  em 18.06.12) Há cinco ou seis  anos, no Mar Salgado ( um blogue onde escrevi entre 2004 e 2011) afirmei que Ciudad Juarez era a cidade mais violenta do mundo. Recordo  a incredulidade  de muitos  e o cepticismo de alguns. Hoje é uma classificação pacífica: subjectiva, claro, mas pacífica. A partir de 1919, início do segundo mandato de Big Bill Thompson, Chicago foi, até ao final da Lei Seca , a cidade  mais violenta e corrupta da América. Coincidência com Ciudad Juarez e outras narcovilles de hoje:  uma droga proibida, corrupção institucional, um mercado radioso, uma política desastrosa. A Chicago dos  filmes começou bem antes. Os patrões dos districts comandavam a política local . Bathouse John Coughlin , Big Jim Colosimo e Michael  Hinky Dink Kenna, donos de saloons e bordéis,  f...

O Drogas e Política

 O arquivo que muito trabalhinho deu passará para aqui dada a descontinuação do Sapo.