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Showing posts from March, 2026

As intoxicações ontem ( III)

  ( originalmente publicado a 26.02.20) Aristóteles não conhecia a dopamina nem via mesolímbica nem as drogas modernas, mas não precisava: "De sorte que todos os prazeres ou são presentes na sensação ou passados na memória ou futuros na esperança; pois sentimos o presente, lembramos o passado e esperamos o futuro " ( Retórica, Livro I, XI).   O estagirita operava uma distinção ( Livro VII, VII) entre o vicioso e o destemperado. O primeiro agia  em função de uma escolha deliberada, o segundo era um doente.  O dictat clínico da cultura ocidental juntou os drogados nos dois mundos da Retórica : por um lado considera-os  doentes, por outro  percebe-os como viciosos incorrigíveis.   Não chegámos aqui por acaso. A política de intoxicações cometeu um erro  colossal com a emergência do LSD: o assunto tornou-se uma doença da juventude. Nã...

As intoxicações hoje ( II): Balzac e a Islândia

  ( originalmente publicado a  21.02.20) Balzac tem um pequena incursão neste mundo: Traité des excitants modernes , publicado em 1839. Existe  uma edição portuguesa sob o título Dos Estimulantes modernos,  pela editora Usus, 1993. Avisava ele: quanto mais  civilizadas e tranquilas forem as sociedades, mais facilmente se conduzirão pela via do excesso.   A Islândia  tinha um problema de álcool na adolescência. O programa Youth Iceland    garantiu milhões de dólares para actividades pós-escolares dos  miúdos: podiam escolher  ballet, boxe ou que quisessem, facilidades para os pais estarem mais tempo com eles, recolher obrigatório até às dez da noite  ( meia-noite  no Verão) para jovens entre os 13 e os 16 anos. O resultado: Today, Iceland has the lowest rate of teen substance abuse in Europe. In 19...

Marrocos

  ( originalmente publicado a 19/02/20)    Marrocos é um caso à parte no mundo narco. Entre 2013 e 2017 produziu 25% da canabis mundial. O cultivo, comércio e consumo são ilegais , mas tolerados quando não incentivados ( os dois primeiros). Digamos que quase um quarto da economia marroquina assenta no haxixe . É a única região grande produtora de uma substância psicoactiva natural  ( os sintéticos dos Balcãs são outro assunto) que está às  portas do mercado europeu: 14.3 km. A evolução da produção marroquina  terá estagnado nos últimos dois anos, mas também é verdade, como podem ver nas fontes citadas, que seria difícil crescer mais. Se isto está relacionado  com variações de mercado -  o ressurgimento de um novo tipo de crack a dar impulso à cocaína - isso só saberemos pelos próximos relatórios oficiais ( e através de  outras fontes ...)   Existem outras particularidades: A Beldya ( ou Bildia) , a variedade tradicional, e...

As intoxicações joje ( I)

  ( publicado originalmente a 16.02.20 Quando recordo  o meu tempo de trabalho na área, não reconheço o ambiente. Eram os anos duros da heroína e do VIH/SIDA. Na unidade de desintoxicação do ( então) CAT de Coimbra ou no bairro da Boavista ( Lisboa), bem pior do que o  Casal Ventoso. A mudança é a única constante e o observador destas coisas tem de se adaptar. Hoje chegam-me à clínica adultos jovens que são gourmets: erva, MD's,  ácidos ( LSD) e cocaína, agora com o regresso do crack em cachimbo  mal amanhado ( o caneco). Não se sentem toxicodependentes: muitos trabalham, estudam, têm carro e não vivem na rua. Os consumos são sustentados por uma parafernália de fontes: os ordenados, os pais, pequeno ( ou médio...) tráfico entre amigos, esquemas variados.   É  sempre divertido visitar os grandes conspirativos. Aldous Huxley, Regress...

Caso único?

  ( publicado originalmente a 12.02.20) 2017: Trinta e um arguidos, incluindo funcionários do banco BIC, começaram a ser julgados num caso que envolve crimes de associação criminosa, corrupção e lavagem de pelo menos 150 milhões de euros, sobretudo proveniente do tráfico internacional de droga . Este caso não teve quase nenhum falatório. 150  milhões de narcotráfico. Já este também teve pouca atenção: Segundo explicaram as autoridades judiciais colombianas à imprensa local, o facto de não haver acordo de extradição entre os dois países dificultou o processo. Além disso, houve problemas com a tradução e não foi possível reunir, em tempo útil, as provas necessárias para requerer a extradição do suspeito . O que é curioso é que este senhor, Assi Moosh, não é apenas um proxeneta de Cartagena: Recently, a local from Taganga claimed that the Israeli tourism ...

Drug lords da Guiné Bissau

  ( publicado originalmente a 09.02.20) Bubo Na Tchuto foi preso pela DEA em Abril de 2013,  em águas internacionais ao largo de Cabo Verde, e extraditado  para os EUA, onde foi julgado. Os militares Papa Camará e António Indjai  ( que  à ultima hora não compareceu  no encontro com os agentes  da DEA infiltrados) são também frequentemente referidos como associados ao narcoestado guineense ( Indjai esteve detido) . Em 2016, Tchamy Yala e Papis Djeme foram também condenados no processo de Tchuto, o primeiro julgado em Paris. Isto entre  2013 e 2016. Depois desapareceram as condenações , mas este ano foram apreendidos 790kg de cocaína e detidas quatro pessoas ( a identidade não é conhcida) .Também este  ano, outra apreensão e de quase duas toneladas . Em ambas as operações foram detidos  colombianos. Police said the latest...

A antiquíssima tradição portuguesa do narcotráfico

  ( publicado originalmente a  08.02.20) A 19 de Agosto de 1512, o junco S.João largou de Malaca rumo a Pegu, tendo descarregado no porto de Maratabão. Levava 964kg de anfião, vendeu 771kg. Dois anos depois, o mesmo  navio, a mesma rota: vendeu 786 dos 918 kg que trazia a bordo. Este é, provavelmente, o mais antigo registo  da nossa prática de comerciantes de droga ( Luis Filipe Thomaz, De Ceuta a Timor, Difel 1998).  A palavra portuguesa da altura para designar o ópio, anfião , deriva da adpatação chinesa ya-pien que por sua vez é a atrdução  do termo árabe afuyun ou afyun . V.M. Godinho discorda num detalhe: a tradução chinesa de  afyun   não é ya-pen mas afuyong . Em Macau, a partir de 1790, foi estabelcido em mesa de vereação que as viúvas e orfãos tivessem lugar assegurado no investimento lucrativo que o tráfico do ópio propo...

That’s like Al Capone bribing J. Edgar Hoover to keep the FBI off his back.

  ( publicado originalmente a  06.02.20 A corrupção e o narcotráfico são siameses. É difícil acreditar que isto tenha sido possível sem ajuda: reparem nesta produção subterrânea  espanhola: um grupo chinês, 3,4 ton de canabis apreendidas em Elche . A palavra subterrânea fica aqui tão bem como os poejos no arjamolho. Com a cocaína a coisa pia mais fino. "Corrupção generalizada no porto de Algeciras": Seis detenidos, entre los que se encuentra un guardia civil, y 8.740 kilos de cocaína camuflados en dos contenedores de plátanos procedentes de Colombia. La mayor aprehensión de droga realizada en España destapa “una corrupción generalizada en el puerto de Algeciras”, según fuentes de la investigación que ha desarrollado la Policía Nacional . Um produto que muita gente quer e que ao mesmo tempo é ilegal, mas que necessita de uma logística que, por exemplo, a por...

A lei Seca da canabis

  ( publicado originalmente a 04.02.20) A lei seca da canabis Têm  neste arquivo várias coisas sobre a Prohibition ( A lei Seca), não vos maço mais. Recordar apenas o essencial: bebeu-se tanto ou mais, matou-se mais, corrompeu-se ( muito ) mais. Já temos uma fábrica de canabis medicinal ( para exportação e a granel). Se  adoptarmos  o modelo canadiano ou americano ( 33  estados), poderá  comercializar em Portugal  canabis medicinal? Não. Comercializará canabis. Ponto. A planta contêm mais de  100 canabinóides,  o THC ( Delta-9-tetrahidrocanabinóide) e o CBD  ( canabidiol) também  estão presentes na dita canabis medicinal. " for instance there's not a lot of science on vaporisation or orally ingested cannabis products as opposed to smoking the product. "And we know that in non-tolerant users, very low doses can...

Afeganistão: histórias antigas

  ( publicado originalmente em  19.07.12) O Great Game , se visto no mapa, era  facilmente perceptível: os britânicos vindos do sudeste, os russos vindos do noroeste. Encontraram-se no Afeganistão ao longo de grande parte do século XIX e jogaram o jogo do conde Nesselrode e do capitão Connoly. Não sei o suficiente sobre as intenções russas desse tempo, mas o jogo britânico parecia claro: prolongar a esfera de influência a partir da Índia, defender-se da cobiça russa. Em 1836, estava Mohammad Khan ocupado, a tentar reunificar o antigo projecto do grande Afeganistão de Durrani, quando os ingleses entram pelo país adentro. Esta terra de ópio é também terra de muitas coincidências: - A primeira guerra anglo-afegã coincide com a primeira guerra do ópio sino-britânica: 1839 -1842. - Os russos cheiram o terreno , primeiro com promessas ( a fronteira de 1873), ...

Afeganistão: um salto para os anos 90

  ( publicado originalmente em 18.07.12) Analisemos hoje as razões do fracasso dos vários planos de erradicação da cultura do ópio postos em prática desde o início dos anos 90. O primeiro projecto do UNDCP ( United Nations Drug Control Program) foi lançado em 1989. Dinheiro, escolas, hospitais, enfim, a parafernália habitual. Continha, como novidade, a célebre cláusula da papoila : era condição prévia de acesso ao financiamento o fim imediato da cultura de ópio. Ou seja, as populações de Kandahar, Helmand, Kunar e das outras províncias tinham de deixar de produzir ópio antes mesmo de obterem ajuda financeira para... deixar de produzir ópio. Como é óbvio, deu asneira e dupla: não só o plano não funcionou como muitas comunidades rurais passaram a chantagear o UNDCP ( "se não me dão dólares, produzo ainda mais"). Em 1997 um segundo plano arranca. Compreende j...