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O sobrinho do príncipe

 Quando fui para o  terreno no início dos anos 90 a conversa era igual à de hoje: supermercados de droga a céu aberto, flagelo , etc. O ir para o terreno foi literal. Fiz parte, desde o início, do projecto pioneiro de troca de seringas  ( lançado pela Profª Laura Ayres da CNLCS)  na rua ( no Algarve  havia um projecto inicial mas fixo) e andei em sítios pitorescos, como o bairro da Boavista ( o Casal Ventoso menos mediático), em Lisboa,  a recolher amostras de saliva para o estudo epidemiológico europeu da prevalência do VIH-SIDA em toxicodependentes.   É notável que quase quarenta anos depois  a conversa seja a mesma. Talvez não seja tão notável assim.  Como já aqui foi dito, a primeira experiência proibicionista ( do uso do ópio)  aconteceu em Manila,  nas Filipinas ( na altura um protectorado americano) em 1908  pela pena do bispo Brent ( com a oposição do governador Taft que veio a ser presidente). Muita água tem passado...

Dá que pensar

 2022 A carga, oriunda de um país sul-americano que o coordenador de investigação criminal não quis divulgar, chegou ao porto de Leixões a 8 de agosto  2026 A Polícia Judiciária, procedeu à detenção de um cidadão português, suspeito de pertencer a uma célula de uma rede internacional de tráfico de estupefacientes, que operava, maioritariamente, no Porto de Leixões.  Pelo meio Há cinco anos consecutivos que a quantidade de cocaína apreendida pelas forças de segurança em Portugal está a crescer. No ano passado, foram apreendidas mais de 25 toneladas desta droga, número que representa um aumento de 11,4% relativamente a 2024.   Quantas reportagens ( não falo de reproduções de comunicados da PJ)  vocês leram sobre o nosso lugar de destaque no narcotráfico mundial? Investigações jornalísticas tão detalhadas como por exemplo o quotidiano do motorista de Sócrates ou os quilos de betão da casa de Montenegro? O jornalismo português não se interessa por tão sumarento assu...

Narco-territórios: de Culiacán a Leixões (II)

   Diz este juiz belga que a Bélgica é basicamente um narcoestado. Vale o que vale do ponto vista da intenção ( anónima) de senhor, aqui interessa-me mais a confusão com o conceito de território narco. Chouvy, que uso muitas vezes e há muitos anos, sintetiza ( Pierre-Arnaud Chouvy,2015: The myth of the narco-state, Space and Polity): The lack of territorial control experienced by the state in many drug-producing countries and its consequence on the pertinence of calling such states narco-states are also barely addressed. Pertinent criteria are therefore needed in order to decide if narco-states exist or not and, if they do, which countries qualify as narco-states.   Ou seja, antes discutirmos se o aparelho de estado está infiltrado pelos narcos ou se a economia assenta  nas rendas do tráfico temos de ir à base: o controlo territorial. Uma das facetas que começa a aparecer nesta série é o controlo. Controlar um território narco não obriga ao desmantelamento das est...

Narco-territórios: de Culiacán a Leixões ( I)

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 Primeiro temos de nos entender ( para este pequeno exercício, poque o assunto  dava para mil páginas)  sobre o que é um território.   Terra, limite, marca, fronteira. Por outro lado: poder, estado, língua, geografia, população, organização política. Tudo isto é intuitivo. O que chamamos territórios narco, ou plazas , intercepta todas estas categorias. Se nos demorarmos nas histórias colombianas ou mexicanas ( as mais mediáticas), reconhecemos que esses territórios se sobrepõem aos territórios nacionais nas suas divisões políticas e administrativas. Por vezes uma minúscula faixa de terreno é muito mais do que uma pequena faixa de terreno. Esta garantiu uma palavra num enorme oleoduto:   Russian troops, who, since the 2008 war with Georgia, have been drawing lines as they find fit between Georgian-controlled territory and breakaway South Ossetia, on July 10 marked off another section of land, leaving a small section of a key, Azerbaijan-Georgia oil pipeline ...

Narconóminas:

 Nada de muito novo se passa. O caso de Garcia Luna foi amplamente publicitado:   Durante más de cinco años he investigado la corrupción y el abuso de autoridad de la extinta Secretaría de Seguridad Pública federal (SSP), cuyo titular era Genaro García Luna. A lo largo de ese tiempo descubrí las profundas redes de complicidad entre García Luna y su equipo más cercano con el crimen organizado, que iba desde bandas de secuestradores hasta carteles de la droga, principalmente el cartel de Sinaloa.    Rocha Moya é mais do mesmo:   Incluso, según las autoridades estadounidenses, esta relación podría rastrearse desde antes de que asumiera el cargo como gobernador, lo que refuerza la hipótesis de una colaboración de hace tiempo, incluso antes del 2021, año en que ganó la gubernatura. La acusación contra Rocha Moya marca un precedente en la relación bilateral entre México y Estados Unidos, al involucrar directamente a un gobernador en funciones en presuntas...

Fentanil, uma bela conversa e México

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  ( publicado originalmente em 08.07.25) Fentanil, uma bela conversa e México   Uma belíssima conversa com alguém que está no top10 da vida empresarial mexicana. Vive lá há muitos anos e, claro, tem  (  muito)  interesse na geopolítica mexicana das drogas. Não é um especialista mas tem, óbvio, um conhecimento local soberbo. No entanto deixou-me uma sensação desagradável umas das sua opiniões: a de que os EUA vão conseguir impedir  que os narcos mexicanos executem mais uma remodelação do negócio.  Lá iremos, mas  para já o meu interlocutor a lertou-me para este movimento no tabuleiro que me tinha escapado: The United States has imposed sanctions on three Mexican financial institutions, accusing them of laundering millions of dollars for drug cartels and facilitating payments for fentanyl precursor chemicals from China, in the late...

Não há cartéis...agora ( III)

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  ( publicado originalmente em 15.05.25) Não há cartéis...agora ( III) Este ciclo começa com a fumigação com paraquat, ou Gramoxone  no seu  nome científico 1,1'-dimetil-4,4'-bipiridina-dicloreto . México. Nos três anos seguintes ao início ( 1975)  da Operação Condor ( tem o mesmo nome da  sinistra sul-americana e tem coisas em comum), 39 helicópteros Bell ( 206 e 212) e 22 aviões ligeiros  foram usados em reconhecimento e fumigação. Entre dez a  doze mil campos de marijuana e papoila foram atingidos. Em Julho de  2000 ainda decorriam accções de fumigação em Chihuahua. A imprensa mexicana relatou inúmeros problemas de saúde pública incluindo morte de crianças. Por ironia, anos mais tarde o uso de pequenos aviões foi popularizado pelos traficantes : se dá para destruir, dá para transportar. Sempre a aprender. A história vem de trás c...