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As intoxicações ontem ( III)

 

( originalmente publicado a 26.02.20)


Aristóteles não conhecia a dopamina nem via mesolímbica nem as drogas modernas, mas não precisava:

"De sorte que todos os prazeres ou são presentes na sensação ou passados na memória ou futuros na esperança; pois sentimos o presente, lembramos o passado e esperamos o futuro" ( Retórica, Livro I, XI).

 

O estagirita operava uma distinção ( Livro VII, VII) entre o vicioso e o destemperado. O primeiro agia  em função de uma escolha deliberada, o segundo era um doente.  O dictat clínico da cultura ocidental juntou os drogados nos dois mundos da Retórica: por um lado considera-os  doentes, por outro  percebe-os como viciosos incorrigíveis.

 

Não chegámos aqui por acaso. A política de intoxicações cometeu um erro  colossal com a emergência do LSD: o assunto tornou-se uma doença da juventude. Não é. Aprendemos com Baudelaire, Pessoa, Junger, que é um assunto também de adultos, aliás, até ao flower power era um assunto quase exclusivo de adultos. A histeria americana proibicionista dos anos 60, para além de ter  feito uma publicidade  magnífica ao dr. Leary e ao seu LSD, travou o que poderia ter sido uma política inteligente. Um exemplo: em Inglaterra, até 1964, a prescrição médica de heroína  ( Coopel, 2002, Ed La Découverte) era autorizada sob controlo do Home Office: nesse ano contavam-se 364 adictos  inscritos.

 

A socialização da intoxicação tem outras raízes, sim, mas que se ligam umas às outras. Os primeiros movimentos americanos  da Temperança, sobretudo a WCTU ( Women's Christian Temperance Uninon) e a ASLA ( Anti-Saloon League), fundadas em 1874 e 1853, atacavam o álcool não por motívos clínicos mas porque o associavam à pobreza e à indigência moral. A raíz cresceu e , como sabem, acabou na Lei Seca, o Volstead Act, em 1919. Ora, o que nessa altura também acabou, obviamente, foi a narcotic  clinic era - os programas terapêuticos  de tratamento de dependentes de opiáceos e de cocaína. Supervisionados  pelo comissário da Saúde de Nova Iorque,  a Worth Street  Clinic tratou, nesse ano,  7464 adictos ( Musto,  D.F., The American Disease: origins of narcotic control, 1999, Oxford UP). Foi tudo pelo cano abaixo.

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