Narco-territórios: de Culiacán a Leixões ( I)
Primeiro temos de nos entender ( para este pequeno exercício, poque o assunto dava para mil páginas) sobre o que é um território.
Terra, limite, marca, fronteira. Por outro lado: poder, estado, língua, geografia, população, organização política. Tudo isto é intuitivo. O que chamamos territórios narco, ou plazas, intercepta todas estas categorias. Se nos demorarmos nas histórias colombianas ou mexicanas ( as mais mediáticas), reconhecemos que esses territórios se sobrepõem aos territórios nacionais nas suas divisões políticas e administrativas.
Por vezes uma minúscula faixa de terreno é muito mais do que uma pequena faixa de terreno. Esta garantiu uma palavra num enorme oleoduto:
Para Sack, território é uma estratégia geopolítica, requer controlo permanente. Sim, a Polónia, o capacho da Europa como se dizia no tempo do Congresso de Viena, foi território de uns, de outros e de... nenhuns.
Foucault, numa das palestras anuais no Collége de France ( 11 de Novembro de 1978). Depois de, por exemplo, as cidades deixarem de valor às muralhas no século XVIII, o ídolo dos estudos culturais desenha a famosa dimensão espaço/poder do território. Sobre Nantes:
"In other words, it was a matter of organizing circulation, eliminating its dangerous
elements, making a division between good and bad circulation, and
maximizing the good circulation by diminishing the bad. It was therefore
also a matter of planning access to the outside, mainly for the town’s
consumption and for its trade with the outside".
Depois temos terra e terreno. Terra é a que há já não se fabrica mais, terenos são comprados e trocados.
Platão distinguia, mas ligava, a khora ( a terra adjacente) e a pólis. Ou seja, um centro político ( sobretudo a acropólis) e autóctone, depois um espaço que pode ou não ser ocupado. Um droit de regarde assistia às gentes da pólis, daí as desventuras de Édipo em Colono. O território ( pólis e khora) pertence às pessoas que lá nasceram, vivem e trabalham.
Já César nunca usa a palavra territorium, prefere fines ( limite) . Cícero e Varro definem territorium como a terra perto da colonis ( sobretudo para agricultura). Lívio e Tácito desenvolvem a ideia e assinalam o pomerium, a terra arável juntos às cidades ( est locus intra agrum).
Vamos avançando devagarinho para o território narco: um espaço que não é bem o da acropólis nem é o do simples terreno agrícola adjacente. Compreende terras, urbes e uma mais ou menos vaga representação da ordem imperial ou do Estado. Também não se limita a uma cidade. É uma amálgama de espaços que se submeterá a um chefe. Esse chefe será um alcaide ( não o oficial, o oficioso).
Os territórios sem lei nem autoridade formais ( por vezes até sob a capa da mais estelífera e oficial delas, como veremos) são um campo natural para o território narco.
Entre o califado de Córdova e a área sob domínio asturiano e leonês existiu uma vasta zona, como conta José Mattoso, sob autoridade instável e intermitente. Instalaram-se comunidades que tiraram proveito da guerra e forjaram relações de solidariedade. Ambos os blocos concederam fueros ( foros) a terras na zona de combate como forma de garantir a lealdade. Afonso Henrique fez o mesmo aos cavaleiros moçárabes de Coimbra. O garante do vínculo institucional com as comunidades autónomas era o...alcaide, alqáyid.

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