O sobrinho do príncipe

 Quando fui para o  terreno no início dos anos 90 a conversa era igual à de hoje: supermercados de droga a céu aberto, flagelo, etc. O ir para o terreno foi literal. Fiz parte, desde o início, do projecto pioneiro de troca de seringas  ( lançado pela Profª Laura Ayres da CNLCS)  na rua ( no Algarve  havia um projecto inicial mas fixo) e andei em sítios pitorescos, como o bairro da Boavista ( o Casal Ventoso menos mediático), em Lisboa,  a recolher amostras de saliva para o estudo epidemiológico europeu da prevalência do VIH-SIDA em toxicodependentes.

 

É notável que quase quarenta anos depois  a conversa seja a mesma. Talvez não seja tão notável assim. 

Como já aqui foi dito, a primeira experiência proibicionista ( do uso do ópio)  aconteceu em Manila,  nas Filipinas ( na altura um protectorado americano) em 1908  pela pena do bispo Brent ( com a oposição do governador Taft que veio a ser presidente). Muita água tem passado debaixo desssa ponte inútil, mas o que o regresso do flagelo e supermercados de droga a céu aberto prova é duas coisas:

1) A inexistência da war on drugs

2) A flexibilidade do aparelho produção/consumo


Mudaram os actores políticos, a tecnologia, as regiões de produção, os mecanismos de controlo, as rotas de distribuição. O que se mantém é o conselho de Tancredi ao tio, o príncipe: se queremos que as coisas continuem como estão, tudo tem de mudar.

 

 

 

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