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As intoxicações joje ( I)

 

( publicado originalmente a 16.02.20


Quando recordo  o meu tempo de trabalho na área, não reconheço o ambiente. Eram os anos duros da heroína e do VIH/SIDA. Na unidade de desintoxicação do ( então) CAT de Coimbra ou no bairro da Boavista ( Lisboa), bem pior do que o  Casal Ventoso. A mudança é a única constante e o observador destas coisas tem de se adaptar.

Hoje chegam-me à clínica adultos jovens que são gourmets: erva, MD's,  ácidos ( LSD) e cocaína, agora com o regresso do crack em cachimbo  mal amanhado ( o caneco). Não se sentem toxicodependentes: muitos trabalham, estudam, têm carro e não vivem na rua. Os consumos são sustentados por uma parafernália de fontes: os ordenados, os pais, pequeno ( ou médio...) tráfico entre amigos, esquemas variados.

 

É  sempre divertido visitar os grandes conspirativos. Aldous Huxley, Regresso  ao Admirável Mundo Novo:

A ração diária de Soma  era uma garantia contra a desadaptação pessoal, contra a agitação social e a divulgação de ideias subversivas (...). Como a religião, a droga tinha o poder de consolar e de commpensar, engendrava visõs e de um mundo melhor, dava esperança, fortalecia a fé (...).

 

Infelizmente, a grande conspiração é menos elegante. Os opiáceos, por exemplo,  ligam-se aos mesmos neuroreceptores que se ligam os nossos opiáceos endógenos . As nossas endorfinas e dinorfinas  ligam-se ao receptores mu, delta e kappa, os opiáceos também. Ou seja, dito de modo simples, nascemos com a capacidade de apreciar as substâncias psicoactivas.

Os chamados cogumelos alucinógenicos, como, por exemplo, o amanita muscaria,  têm uma história tão antiga como a da domesticação dos auroques e das renas na vida dos  siberianos  nenets, khanty,  chukchi e outros povos . Nos restos mortais da Red Lady ( El Miron, Cantábria), datados do período magdaleniano ( 19.000 anos)  foi feita a análise aos dentes ( impecáveis) da senhora e os investigadores  encontraram vestígios do amanita muscaria, "possivelmente usado para outros propósitos que não a alimentação".

 

Ao longo desta série vamos tentar identificar a tendência actual das intoxicações. Não misturando tudo no mesmo saco, claro, porque a mudança não se faz da mesma forma em todo o lado.

 

 

 

 

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