Coca e arsénico: confusões
( orgininalmente publicado em 25/04/25)
É uma tese de dissertação inagural apresentada à Escola Médico-Cirurgica do Porto em 1904. A cocaína, uma novidade relativa, é descrita como uma multifunções para vários males. Teixeira Ribas desacredita o grito de alarme que veio patentear que o medicamento que manipulavamos era não só inconstante mas traidor e perigoso. E vai mais longe, quer fazer brotar para a exilada cocaína:
uma nova era cheia de vantagens, de utilidades e de proveitos, um novo período emfim, de vitória e triumpho.
Nao existe nada de novo no entusiasmo com uma droga que a medicina exalta e depois abandona. O que aqui é mais cativante é a comparação entre percursos. Enquanto que os opióides e a canabis continuam a ser utilizados em sede terapêutica, e muito, a cocaína provou ser inconsequente do ponto de vista clínico. Já na sua expressão cultural a cocaína é hoje sobretudo um problema político e garantiu uma popularidade que ultrapassa a velha heroína.
Ainda mais interessante, e por isso trago aqui este livrinho, é o argumento que a página tantas o autor utiliza. Sobre as virtudes da coca diz o autor
eram e são tão correntes que o índio nunca se punha em marcha sem o seu saco de coca, identicamente ao camponez do Tirol que jamais abandona o arsénico.
A tese , popularizada em meados do século XIX, é discutível. Se alguns habitantes da Ístria usavam o trióxido de arsénico não bateriam bem da tola porque o acerto na dose era perigoso e difícil. Aqui têm o resumo actual da discussão, mas o ponto é outro. Teixeira Ribas acerta sem querer: o uso de uma droga nas suas condições naturais ( a folha de coca tem dezenas de alcalóides, acúcares etc) não significa a validação de um sintético dela derivado.
A dita cultura ocidental cometeu muitos erros destes na apropriação ( legítima) que fez de drogas exteriores às suas práticas culturais. E pagou, e paga, caro.

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