Não há cartéis... agora ( II)
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Não há cartéis... agora ( II)
Os narco sul e centroamericanos ( sejam colombianos, mexicanos etc) são uma novidade na longa narcohistória. Durante muitos séculos os narcos foram sobretudo portugueses, holandeses, ingleses e espanhóis.

Alfredo Bignon, farmacêutico peruano, foi o inventor da PBC ( pasta básica de cocaína ) em 1885, a resposta andina à síntese europeia.
No rescaldo da WW II, e preparando a ofensiva final da Single
Convention de 1951, os EUA suportam o regime de Manuel Odría. A
ligação dos EUA ao Peru remonta à Guerra do Pacífico ( 1879-84), os
americanos ajudando os peruanos no Tratado De Lima, de 1929, a recuperar
terras perdidas ( Tacna) para o Chile. Sob os mandatos de Léguia, a
colaboração institucionaliza-se em termos militares mas também
económicos: Edwin Kemmerer, o Money Doctor de Princeton, é
enviado para Lima para ajudar à festa. Entre 1950, já com Odría no
poder, e 1965 o Peru recebe 59,3 milhões dólares de ajuda militar
americana.
Durante os anos 60 e 70, tanto o Peru como a Bolívia ( a Junta Militar de Barrientos em 1964), e depois o Chile com Pinochet, todos regimes apoiados pelos EUA, alinham na repressão à produção de coca: no Peru é do alto Huallaga que ela irá devagarinho para norte, para as mãos dos colombianos. Velasco substiutui Bellaúnde , ambos ensaiam reformas agrárias: o Plan Inca de 1969 sucede ao projecto Ceja de la Selva ( a Sobrancelha da Selva, a estrada que ligaria o Peru à sua parcela de floresta amazónica e a redestribuição de propriedades superiores a 150 hectares). Em ambos os países as guerrilhas, sobretudo subordinadas ao conceito de Che Guevara de Guerrilla Foco, de um lado e a pressão americana do outro ajudaram ao fracassso das boas intenções. No meio deste caldo andino pouco favorável à coca, os colombianos vão , como dissemos, começar a fazer as suas contas. Ou seja, de uma situação de produção controlada e legal ( ver número anterior desta série) no início do século passamos, em mais ou menos 60 anos, à sua entrega aos colombianos.
Um pouco ( com diferenças como veremos) como no Peru, também na Colômbia a mistura entre violência de Estado e actividade das guerrilhas pavimentou o caminho. A seguir à morte de Gaitán em 1948 o país entra na famosa La Violencia. Lembrando a Sícilia de Lampedusa, a luta entre pequenos proprietários liberais e conservadores criou uma bela cultura de salteadores, contrabandistas e guerrilheiros ( estima-se em mais de 200.000 mortos até aos anos 60). Muito mais longa e letal do que nos vizinhos andinos, nas cidades viviam os grandes proprietários rurais aos quais o conflito não tocou. Os EUA, no contexto da Guerra Fria e da proximidade do Canal do Panamá, fizeram o mesmo que no Peru: ajuda militar em troca ( entre o resto) do droit de regard sobre a tolerância zero face à coca e às guerrilhas.
O historial de La Violencia encontra no final dos anos 60 um Estado sequestrado e três grupos insurgentes principais: as FARC ( sovietizadas), o Ejército de Liberación Nacional (ELN) castrista e o Ejército Popular de Liberación ( EPL) maoísta. Isto é crucial porque explica a diferença, ou seja, a razão pela qual é na Colômbia que nascem os primeiros cartéis. O país ficou completamente alheado das zonas rurais: nem sombra de reformas agrárias mais ou menos atamancadas ou corrigidas. A La Violencia criou uma tradição de lei da selva em zonas longe da vista da capital. Quando, e lá iremos no terceiro número, os EUA resolvem atacar a marijuana mexicana, os contrabandistas e salteadores colombianos compreendem que os seus compatriotas camponeses, famintos e abandonados, estão mais do que aptos ( coitados) a trabalhar num negócio muito rentável: a produção de coca,
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