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Não há cartéis... agora ( II)

 

( publicado originalmente em 03.05.25)

Não há cartéis... agora ( II)

Os narco sul e centroamericanos ( sejam colombianos, mexicanos etc) são uma novidade na longa narcohistória. Durante muitos séculos os narcos foram sobretudo  portugueses, holandeses, ingleses e espanhóis.

 

Peru and the United States

 

Alfredo Bignon, farmacêutico peruano, foi o inventor da PBC ( pasta básica de cocaína ) em 1885, a resposta andina à síntese europeia. No rescaldo da WW II, e preparando a ofensiva final da Single Convention de 1951,  os EUA  suportam o regime de Manuel Odría. A ligação dos EUA ao Peru remonta à Guerra do Pacífico ( 1879-84), os americanos ajudando os peruanos no Tratado De Lima, de 1929, a recuperar terras perdidas ( Tacna) para o Chile. Sob os mandatos de Léguia, a colaboração institucionaliza-se em termos militares mas também económicos: Edwin Kemmerer, o Money Doctor de Princeton, é enviado para Lima para ajudar à festa. Entre 1950, já com Odría no poder, e 1965 o Peru recebe 59,3 milhões dólares de ajuda militar americana.

Durante os anos 60 e 70, tanto o Peru como a Bolívia ( a Junta Militar de Barrientos em 1964), e depois o Chile com Pinochet, todos regimes apoiados pelos  EUA, alinham na repressão à produção de coca: no Peru é do alto Huallaga que ela irá  devagarinho para norte, para as mãos dos colombianos. Velasco substiutui Bellaúnde , ambos ensaiam reformas agrárias: o Plan Inca de 1969 sucede ao projecto Ceja de la Selva ( a Sobrancelha da Selva, a  estrada que ligaria o Peru à sua parcela de floresta amazónica e a redestribuição de propriedades superiores a 150 hectares). Em ambos os países as guerrilhas, sobretudo subordinadas ao conceito de Che Guevara de  Guerrilla Foco, de um lado e  a pressão americana do outro ajudaram ao fracassso das boas intenções. No meio deste caldo andino pouco favorável à coca, os colombianos vão , como dissemos, começar a fazer as suas contas. Ou seja, de uma situação de produção controlada e legal  ( ver número anterior desta série) no início do século  passamos, em mais ou menos 60 anos,  à sua entrega aos colombianos.

Um pouco ( com diferenças como veremos)  como no Peru, também na Colômbia a mistura entre violência de Estado e actividade das guerrilhas  pavimentou o caminho. A seguir  à morte de Gaitán em 1948 o país entra na famosa La Violencia. Lembrando a Sícilia de Lampedusa, a luta entre  pequenos proprietários liberais e conservadores criou uma bela cultura de salteadores, contrabandistas e guerrilheiros ( estima-se em mais de 200.000 mortos até aos anos 60). Muito mais  longa e letal do que nos vizinhos andinos, nas cidades viviam os grandes proprietários rurais aos quais o conflito não tocou. Os EUA, no contexto da Guerra Fria  e  da proximidade do Canal do Panamá, fizeram o mesmo que no Peru: ajuda militar em troca ( entre o resto) do droit de regard sobre a tolerância zero face à coca e às guerrilhas.

O historial de La Violencia encontra no final dos anos 60 um Estado sequestrado e três grupos insurgentes principais: as FARC ( sovietizadas), o Ejército de Liberación Nacional  (ELN) castrista e o Ejército Popular de Liberación ( EPL)  maoísta. Isto é crucial porque explica a diferença, ou seja, a razão pela qual é na Colômbia que nascem os primeiros cartéis. O país ficou completamente alheado das zonas rurais: nem sombra de reformas agrárias mais ou menos atamancadas ou corrigidas. A La Violencia criou uma tradição de lei da selva em zonas longe da vista da capital. Quando, e lá iremos no terceiro número, os EUA resolvem atacar a marijuana mexicana, os contrabandistas e salteadores colombianos compreendem que os seus compatriotas camponeses, famintos e abandonados,  estão mais do que aptos ( coitados)  a trabalhar num negócio muito  rentável: a produção de coca,

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